Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Um extrato do livro "As Intermitências da Morte" de Saramago, que eu adaptei, especialmente ao nível da pontuação, uma vez que o referido senhor tem a mania de não usar os sinais de escrita convencionais, preferindo levar tudo "a eito", com virgulas, maiúsculas e pontos, dificultando assim a leitura.

Tomem muita atenção à pontuação, para perceberem todo o sentido das frases.

 

 

«Em poucas palavras se conta [a fábula da tigela de madeira], e aqui a vamos deixar para ilustração das novas gerações (...). Atenção, pois, à lição de moral. Era uma vez, no antigo país das fábulas, uma familia em que havia um pai, uma mãe, um avô que era o pai do pai e uma criança de oito anos, um rapazinho. Ora sucedia que o avô já tinha muita idade, por isso tremiam-lhe as mãos e deixava cair a comida da boca quando estavam à mesa, o que causava grande irritação ao filho e à nora, sempre a dizerem-lhe que tivesse cuidado com o que fazia, mas o pobre velho, por mais que quisesse, não conseguia conter as tremuras, pior ainda se lhe ralhavam, e o resultado era estar sempre a sujar a toalha, para já não falar do guardanapo que lhe atavam ao pescoço e que era preciso mudar-lhe três vezes ao dia, ao almoço, ao jantar e à ceia. Estavam as coisas neste pé e sem nenhuma expectativa de melhora quando o filho resolveu acabar com a desagradável situação. Apareceu em casa com uma tigela de madeira e disse ao pai: "A partir de hoje pasará acomer aqui, senta-se na soleira da porta porque é mais facil de limpar e assim já a sua nora não terá de preocupar-se com tantas toalhas e tantos guardanapos sujos.". E assim foi. Almoço, jantar e ceia, o velho sentado sozinho na soleira da porta, levando a comida à boca como lhe era possível, metade perdia-se no caminho, uma parte da outra metade escorria-lhe pelo queixo abaixo, não era muito o que lhe descia finalmente pelo que o vulgo lhe chama o canal da sopa. Ao neto parecia não lhe importar o feio tratamento que estavam a dar ao avô, olhava-o, depois olhava o pai e mãe, e continuava a comer como se não tivesse nada que ver  com o caso. Até que uma tarde, ao regresar do trabalho, o pai viu o filho a trabalhar com uma navalha um pedaço de madeira e jugou que, come era normal e corrente nessas épocas remotas, estivesse a construir um brinquedo por suas próprias mãos. No dia seguinte, porém, deu-se conta que não se tratava de um carrinho, pelo menos não se lhe via sitio onde se lhe pudessem encaixar umas rodas, e então perguntou: "Que estás a fazer?". (...) o filho, sem levantar a vista da operação, respondeu: " Estou a fazer uma tigela para quando o pai for velho e lhe tremerem as mãos, para quando o mandarem comer na soleira da porta como fizeram ao avô.". Foram palavras santas. Cairam as escamas dos olhos do pai, viu a verdade e a sua luz, e no mesmo instante foi pedir perdão ao progenitor e quando chegou a hora da ceia por suas próprias mãos lhe levou a colher à boca, por suas próprias mãos lhe limpou suavemente o queixo, porque ainda o podia fazer e o seu querido pai não.»

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)



calendário

Julho 2009

D S T Q Q S S
1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031


Arquivo morto

  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2012
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2011
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2010
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2009
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2008
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2007
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D