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O voo (# 8)

14.08.07

Está deitada no chão, a contemplar o céu azul e o Sol que brilha mais do que nunca.

 

Fecha os olhos e pensa como seria bom subir até ao céu, ver as estrelas, ser a confidente de todos os seus segredos e dos segredos Dele. Esse Outro que está tão longe, embora, na realidade, esteja mais próximo do que o alcance de um braço.

E ela quer chegar ao céu e vai chegar. Encontra a escada em caracol. Sobe os degraus com toda a segurança e determinação que tem. Mas em vão. Não chega ao céu... nem lá perto.

Sobe à torre mais alta e continua a ver as estrelas, muito ao longe, a sorrirem-lhe maliciosamente: "Nunca cá chegarás"

As lágrimas escorrem-lhe pela face e a necessidade de chegar ao céu torna-se cada vez mais imperial. Voa num balão (voa muito alto, muito mais alto do que qualquer Homem chegou) mas lá em cima o ar é irrespirável. Chega a procurar dragões, mas quem os consegue montar?

Só lhe resta uma derradeira hipótese. Encontra um anjo na rua (daqueles que andam disfarçados de simples mortais) e pede-lhe para fazer nascer asas. O pedido ser-lhe-á concedido se ela se abster dos pensamentos que a ligam à Terra dos Homens, porque o ser que voa com asas de anjo deve ser puro, logo, deve ser desprendido de todas as coisas terrenas.

E finalmente, com um suave bater de asas, eleva-se no ar. Bate novamente as asas e eleva-se mais um pouco. Fica suspensa no ar, ponderando o que realmente quer. Sim: chegar ao céu e tomar conhecimento de todos os Seus segredos.

Sente as brancas penas roçarem-lhe no pescoço durante o voo e em nada mais pensa senão no seu destino.

Quando chega tão próximo que quase podia tocar as estrelas com as pontas dos dedos, sente que agora está mais perto do que nunca. Mais perto, não das estrelas, mas do Outro.  Pois embora esteja longe em distância, desta vez está perto Dele, perto do Seu ser, tão perto que quase O pode sentir. E não tardará em conhecer todos os recantos da Sua alma.

Mas as asas já não lhe roçam o pescoço, embora ela as continue a bater. As penas ebúrneas caem para o espaço negro por baixo dela, como flocos de neve. E antes de começar a cair em direcção á Terra, ainda consegue ouvir as estrelas: "Nos avisamos...Nunca cá chegarás"

                        Cai                  

                  Cai        

            Cai

      Cai

Cai

e desamparado, o seu corpo morto bate no chão.

 

Abre os olhos. O Sol já se foi e um manto negro cobre o céu, pintalgado com estrelas - as mesmas que há horas atrás desejava alcançar. Levanta-se e dirige-se para casa. Aparentemente, nada nela mudou. Mas bem no fundo ela sente que durante o tempo que esteve deitada, de olhos fechados, a viajar, parte da sua alma ficou junto das estrelas; a parte que Lhe pertencia. Pois tudo o que se relacionasse com Ele, tudo que ela tentasse saber Dele, tudo o que fissesse por Ele, apenas lhe traria lágrimas, desilusões e morte.

 

Agora, sim, tudo estava bem.

                                                                     By Inner demon

 

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