Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Após vários meses a usufruir deste avanço tecnológico, penso ser este o momento ideal para quebrar o tabu e proceder a uma reflexão profunda acerca do modo como a TDT alterou a vida dos portugueses.

 

Reparem pois então, em tudo o que a nova televisão nos veio oferecer:

 

1) Imagem e som mais nítidos e de alta definição, que nos permite viver mais intensamente todos os segundos daquele filme ou da novela das dez;

 

2) Plano da programação e sinopses para as duas semanas seguintes (porque o teletexto é coisa do passado);

 

3) Programação totalmente dedicada à natureza, com os quadradinhos de cores rosadas, coloquialmente chamados de "Flores" pela minha avó (termo que, confesso, adoptei imediatamente);

 

4) Screen Shots de alta definição dos nossos actores preferidos ou das cenas mais empolgantes da nossa novela, permitindo-nos ficar a adorar durante vários momentos aquela fácies de olhos arregalados e boca escancarada, momentos antes de dar o grito que antecede o tiro que irá deitar por terra o rival que lhe andou a fazer a vida negra por mais de 100 episódios;

 

5) Depois do surgimento dos revolucionários livros aos quadradinhos, a TDT inovou com a TDT aos quadradinhos, que já conquistou vários fãs que tentam desesperadamente compreender que raio de imagem se esconde por detrás dos quadrados que preenchem o ecrã do seu televisor (ideia roubada daqui);

 

6) Sessões gratuitas de cromoterapia, permitindo-nos desfrutar dos benefícios das cores azul, verde e rosa (- fluorescentes), que ora preenchem todo o ecrã (a fim de usufruirmos em maior grau dos efeitos benéficos da cor), ora aparecem às riscas horizontais ou verticais, ora formam variados padrões tricolores;

 

7) Programas de apoio ao controlo da raiva, porque, depois de inúmeras tentativas para por a imagem a dar ...vá lá...satisfatoriamente... que remédio temos se não controlar a raiva, para não espetar com o pé pelo ecrã da televisão adentro, ou mandar com a antena pelos ares;

 

E por último mas não menos terapêutico...

 

8) Momentos de profunda introspecção, graças à imagem totalmente negra, que nos leva a uma viagem até aos recantos de maior desespero que a nossa alma alberga.

 

Portanto, para além de considerar que esta involução da TDT consiste num complô para aumentar as adesões à TV por cabo (ideia que, com certeza, é só o resultado de um dos meus frequentes surtos de psicose paranóica), só espero que pelo menos isto sirva para fazer os portugueses levantarem os seus rabinhos do sofá e irem dar um passeio, enquanto mandam a TDT à merda.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Progresso (# 46)

10.08.09

Ansiamos pelo progresso, achamo-lo indispensável, afirmamos que não poderiamos viver sem ele.

Mãos robóticas fazem mais eficazmente o que outrora mãos humanas faziam; máquinas mais evoluidas aumentam os níveis de produção para valores inimagináveis na época em que o trabalho era realizado por funcionários; novos produtos, novos automóveis mais rápidos e potentes, coisas fúteis mas belas aumentam a nossa qualidade de vida; sistemas informáticos tornam operações outrora complexas e demoradas em acções simples, seguras e rápidas que podemos fazer no conforto dos nosos lares e sem o incómodo da deslocação; redes sociais na net permitem-nos conhecer gente em todo o mundo e comunicar com familia e amigos à distância.

Mas reparem: mãos robóticas ocupam os lugares outrora ocupados por mãos humanas; máquinas mais evoluidas diminuemo número de empregados para valores inimagináveis na época em que o trabalho era realizado por funcionários; novos produtos (de usar e lançar fora), novos automóveis e coisas fúteis mas belas aumentam a poluição; sistemas informáticos tornam operações outrora realizadas por seres humanos em operações em que estes são dispensáveis, e tornam-nos, a nós, que as podemos fazer no conforto e isolamento dos nosos lares e sem o incómodo da deslocação, em coisas anti-sociais e anti-naturais, que deixam de viver no mundo real, construido por moléculas e átomos, e passam a habitar num universo virtual, construido em código binário (zeros e uns!); redes sociais na net permitem-nos parecer que conhecemos pessoas de todo o mundo, quando na verdade nada sabemos sobre quem eles realmente são, e comunicar com os nossos amigos, esquecendo simultâneamante o prazer do contacto físico, da conversa cara a cara, directa e natural.

É esta a outra face da moeda: o desemprego a aumentar, logo, as condições de vida a degradarem-se; os jovens com cada vez menos esperanças num futuro promissor; um mundo cada vez mais poluido, com cada vez menos recuross naturais, um mundo em agonia onde já não se deseja viver; a condição humana a degradar-se, pois a cada dia que passa convivemos cada vez menos, falamos cada vez menos, saimos cada vez menos, contactamos cada vez menos, "saberemos cada vez menos o que é um ser humano".

E a isto chamamos progresso. Deveriamos, portanto, fugir dele? Talvez, mas, na verdade, ele é indidpensável e não podemos viver sem ele.

Tudo na vida tem um preço; só temos que estar dipostos a pagá-lo.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

calendário

Junho 2013

D S T Q Q S S
1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
30


Arquivo morto

  1. 2013
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2012
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2011
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2010
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2009
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2008
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2007
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D